segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Crise de Identidade
A sociedade moderna vive uma crise de identidade que está profundamente relacionada à maneira como as pessoas se vêem ou como querem ser vistas. Firmada em padrões sociais baseados na imagem e no consumo, pessoas do mundo inteiro procuram se adaptar aos estereótipos criados pela mídia e grandes empresas. Fatos que são resultados do uso indiscriminado da imagem, da globalização e principalmente da exploração das ciências relacionadas ao comportamento do consumidor.
No decorrer da história, vemos a necessidade do homem de perpetuar o instante. Seja nas pinturas rupestres ou na idade média, a reputação precisava ser passada adiante a fim de exaltar aquele que, de certa forma, conquistou algo. Com o surgimento e o desenvolvimento da fotografia, todos puderam ter acesso a isso: Serem eternos. Mas atualmente a sociedade passa por um movimento em que o uso indiscriminado da imagem a leva a saturação. Em todos os lugares, somos defrontados com uma foto, um outdoor ou uma propaganda. Ditando regras, criando padrões e sustentando ideais de beleza, comportamento e riqueza. Na internet, blogs, fotoblogs, televisão, novelas, comerciais, além dos filmes, spots e anúncios de revistas. Nunca foi tão fácil transformar a representação significa de um ser em ideal de vida.
Quem é você? Em um mundo globalizado, onde as fronteiras do consumo não existem, o ser, está ligado ao ter. Não há dúvidas de que a globalização trouxe à sociedade muitos benefícios. Tivemos acesso a coisas jamais pensadas antes. Mas a maneira como as empresas rompem as fronteiras e conquistam territórios, influencia o comportamento e corrompe as culturas locais de maneira catastrófica. 99% da população mundial conhece a Coca-Cola , a empresa norte-americana de maior valor e ícone máximo do conhecido “American Way of Life”. A China, país essencialmente naturalista, com a abertura das fronteiras, recebeu muitos restaurantes fast-food e vive hoje um problema alarmante, o sedentarismo, pesquisas mostram que ela já possui 200 milhões de pessoas acima do peso, 97% a mais do que há 12 anos . Fator ligado, também, ao que os especialistas chamam de trinômio de vida: TV, computador e carro , resultado do desenvolvimento e do aumento da renda das famílias.
Além disso, vemos, desde o final do século XX, o crescimento das ciências relacionadas ao consumidor. Hoje, os investimentos são cada vez mais altos e buscam conhecer e determinar formas específicas para cada ato de compra. As pesquisas comportamentais visam o desenvolvimento de marcas associadas a estilos de vida e benefícios socioeconômicos. Com a ajuda da mídia de massa, criando ídolos e celebridades, as empresas aumentam as receitas explorando, principalmente, o emocional das pessoas. Vimos essa máxima em propagandas de cigarros, um produto tóxico associado a esporte, lazer e liberdade. Marcas luxuosas como Louis Vuitton, Gucci e Chanel, estão entre as mais valiosas do mundo, firmadas em princípios de status, exclusividade e soberania.
Por tudo o que vimos, podemos perceber que as pessoas tomam para si comportamentos superficiais e que não correspondem com aquilo que são. Sabemos que artigos que carregam marcas como as já citadas, custam caro, mas não é difícil ver em lojas e feiras populares imitações dessas peças, evidenciando essa busca da população por suprir necessidades mentirosas. O mundo vive uma crise de identidade sim. E enquanto não se respeitar a individualidade, continuaremos sendo coisas , manipulados por desejos e vontades, criados por grandes corporações de mídia e conglomerados empresariais.
ALETP.COM, Coca-Cola | História da Marca. Link: http://aletp.com/2006/10/25/coca-cola/
FOLHA DE S PAULO, “Obesidade afeta 1 em cada 8 pessoas em grandes cidades da China”. 12/10/2004 - 10h33. Link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u77377.shtml.
BBC BRASIL, China alerta para alto risco de obesidade. 18 de junho, 2005 - 10h15
ANDRADE, Carlos Drummond de. Eu, etiqueta - O corpo. Rio de Janeiro, Record, 1984 p. 85-87
domingo, 6 de setembro de 2009
Inesperadamente fim
Virginia não chorava, a dor de perder alguém já se fazia tão presente em sua vida que suas lágrimas não saíam mais. ― Por quê? Ela perguntava sem resposta. Eduardo morrera de repente, uma bala perdida em um tiroteio o sentenciou. Seus pensamentos voltavam e buscavam respostas, o remorso e a culpa a deixava com vontade de nunca ter visto aquele homem.
Era tarde de domingo e a noite logo chegaria, chovia. O rosto assustado de Eduardo evidenciou que não esperava Virgínia naquele horário. Ela segurava uma rosa. Sua postura o deixou tímido, eles haviam discutido no final de semana passado, ela chorara muito e saiu prometendo nunca mais voltar. Ele fitou-a por algum tempo, sua pele branca como a neve, seu olhar doce e tênue como um cisne, a rosa que segurava era tão vermelha que lhe parecia sangue novo, autêntica, seus olhos azuis tinham uma maneira peculiar de prender-lhe a atenção: ― Entre. Finalmente ele a chamou.
Quando começaram a sair, Virginia trabalhava em uma loja de conveniências, dentro de um parque de diversões. ― Deseja mais alguma coisa? Essa pergunta ficou na cabeça de Eduardo durante toda uma noite, nunca tinha ido tanto a um parque como naqueles dias, não podia ficar sem ver os olhos de Virginia. Eles se divertiram muito naquele parque. Namorados. Lá de cima, via-se tudo girando, uma gritaria misturada a um momento de diversão, figuras metálicas se movimentavam de lá para cá, tudo ficava pequeno visto dali, árvores cheias de folhas delimitavam o espaço do lugar. Algo mágico para Eduardo, até ver estruturas feias e inacabadas em torno do parque. Casinhas de um vilarejo pobre que cercava o grande complexo de lazer e entretenimento. De família rica e tradicional, ele não conhecia a pobreza.
A chuva começou a cair quando Eduardo perguntou:
― Quer beber alguma coisa?
― Você me perdoa? Disse Virgínia sem dar atenção à pergunta.
Eduardo a beijou. ― Claro que te perdôo, vamos tomar um banho, você deve estar com frio. Eduardo já havia dito que não se sentia bem com o ciúme acentuado de Virgínia, ela extrapolara no final de semana passado. E lá estava ela deitada no sofá, cabelos molhados, segurando a mão do homem que nunca mais voltaria a ver. ― Vamos ao parque? Você não irá trabalhar hoje, vamos nos divertir.
A noite era realmente especial, a chuva parou de cair e um ar úmido e tímido deixava os dois mais perto um do outro. O sentimento mais puro que Virginia já sentira, ela o amava muito, seus cabelos castanhos, olhos verdes, sua beleza descontraída. O ar se tornou pesado inesperadamente, Virgínia sentia que Eduardo não estava mais ali, o sangue estava em suas mãos, os olhos escureceram. O parque fora invadido por alguns moradores do vilarejo. No confronto, ele foi atingido. O único grande amor de Virginia se fora. Sozinha.
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