Tomando como base o fato de que, para Sócrates, a ética situa o indivíduo em um âmbito capaz de compreender o que faz, com consciência do significado de suas atitudes, intenções, consequências e finalidade de suas ações, podemos analisar que, para ele, a imagem de uma “ética universal” seria o conjunto de práticas responsáveis e realizadas por seres conscientes.
Ora, seres conscientes em que sentido?
Segundo Octávio Ianni, vivemos debaixo das “ordens” de uma “entidade” que regula, controla, define e cria aquilo que seria uma consciência coletiva. O Príncipe Eletrônico ao qual ele se refere não possui fronteiras, é atemporal e altamente flexível a qualquer cultura ou diferenças locais. Portanto, toda a consciência de si da qual fala Sócrates estaria, seguindo essa linha de raciocínio, nas mãos de alguns dos pilares de sustentação do modelo socioeconômico atual: a mídia, controlada pela classe dominante.
Com base nesses pressupostos, quero indagar sobre uma instituição formada pelos meios de comunicação de massa, como a TV, jornais e revistas que “forma e molda” opiniões coletivas e, de alguma maneira, influencia nas decisões individuais éticas e morais de cada sociedade.
No mês de outubro, o MST (Movimento Sem-Terra), protagonizou um fato que, como sempre, gerou polêmica. A ocupação de terras de uma empresa foi rechaçada pela mídia em virtude de existir no cenário um prejuizo gigante e a paralisação da produção. Porém, saliento que a imprensa não revelou em nenhum momento que as terras ocupadas pelo MST também não pertenciam legalmente à Cutrale, não avaliou as questões socioculturais e os processos pelos quais o movimento realiza esse tipo de atitude (dando ao leitor conteúdo substancial para analises mais profundas) e não expôs, em nenhum momento, as atitudes individuais dos envolvidos e do público em geral em relação aos fatos.
Segundo dados da União as terras em que as fábricas da Cutrale funcionam são terras ilegais e pertencentes à União. A própria empresa teve, neste caso, uma atitude parecida com a do MST, porém, se levarmos em consideração o fato de que a “invasão” da Cutrale trouxe em todos estes anos millhões e milhões de reais em lucros e crescimento para a indústria teríamos a razão em dizer que sua atitude é ainda pior. No entanto, não quero determinar o que seria ético ou antietico, mas trazer à tona fatos que dão uma visão maior do caso e propõem a reflexão daquilo que Sócrates afirma como sendo ético , pois só com consciência podemos deliberar.
Além disso, em algum momento (não apenas neste episódio com a Cutrale) a grande mídia coloca em discussão os motivos do MST? Em algum momento avalia ou, simplesmente, apresenta dados históricos sobre sua luta, seus ideais ou objetivos? É importante atentar-se a estas coisas, pois pensando na problemática levantada por Kant, como saber se uma atitude é ética, a partir do momento que faço parte de um contexto coletivo de sociedade? A base de pensamento do MST (não tenho propriedade e nem é minha intenção falar sobre isso) é, segundo o site do movimento, buscar a igualdade na distribuição de terras no País. A atitude é digna e boa, e como diria Sócrates “quem conhece o que é o bem não pode deixar de agir virtuosamente, isto é, de acordo com a ética”.
Qual a nossa atitude em relação a isso? Nosso país passa por grandes modificações estruturais. Crescimento econômico, visibilidade no exterior, entre outras coisas, mas, ao mesmo tempo, problemas que nos acompanham a muito tempo insistem em fazer parte de nosso cotidiano e não paramos nenhum momento para discutí-los, para entendê-los ou, se quer, questioná-los. Apenas aceitamos a nossa “alimentação intelectual” diária oferecida pela nossa mídia que, como já sabemos, possui interesses comerciais assim como qualquer empresa, e age de todas as maneiras possíveis em prol do mercado, da elite e da perpetuação de um sistema opressor e segregador.
Fiz uma avaliação com algumas pessoas sobre o que elas pensam sobre o MST e o resultado é muito interessante, pois praticamente todos não sabem sequer que o movimento possui uma estrutura, objetivos e ideais, porém todos declaram veementemente que são contra e os caracteriza como ladrões. Quero deixar claro que meu objetivo não é defendê-los, nem apoiar suas táticas de ação, o fato está na discrepância na cobertura da imprensa e o apelo desta em formar opiniões que influenciam em nossa concepção ética e moral.
Fica aqui minha revolta e minha singela sugestão: Enquanto não começarmos a questionar e criticar tudo aquilo que é colocado de maneira geral, padronizada e claramente carregada de opinião (neste caso, de um seleto grupo de pessoas ricas) não teremos aquela consciência própria da qual falou Sócrates, não poderemos indagar sobre as ações universais como Kant e estaremos fadados ao que Marx escreveu sobre a ideologia da classe dominante, que obscurece o verdadeiro sentido das coisas e determina a sociedade civil ao invés de ser por ela determinada. Ou seja, nossa consciência estará completamente alienada e reproduzindo os valores estabelecidos pela classe dominante.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário